sábado, 18 de dezembro de 2010

December Crisis

Às vezes parece que sou burro. Claro, devo mesmo ser um tanto, mas às vezes parece também a mim, que estou acostumado a não me conceber dessa forma. Às vezes desconfio da capacidade humana de aprender, ou, blasfêmia infinitamente maior, às vezes desconfio dolorosamente da minha própria capacidade de evoluir. Parece que todos os meus passos são curtos ou tortuosos demais...

Ao que tenho notado, tenho desperdiçado grandes oportunidades na vida. Parece que sou lerdo; que deixo as coisas passarem... Lamento que as soluções me apareçam tão óbvias depois de as oportunidades terem passado. Certamente, a expectativa é uma “faca de dois legumes”, “a luz anal de um vagalume que ilumina o meu sofrer”, e que, se por um lado me dá alguma segurança, pelo outro fornece munição aos meus erros mais lamentáveis.

As grandes oportunidades passam por mim, que observo atônito, como mero expectador de minha própria vida. É que — talvez noutra explicação simplista — não estou acostumado a reconhecer oportunidades em meio às dificuldades. No máximo, acostumo-me a adotar um padrão mais ou menos razoável, que me torna nalgo como um orador estúpido e vazio, que entretém, quando muito, alguns ignorantes mais ou menos capazes de digitar alguma coisa na urna eletrônica. Às vezes me sinto desprezível a tal ponto que o Tiririca parece um Buda.

Isso, ao que suponho, tem tudo a ver com a Ex-Primeira Dama, de três anos atrás. — Tadinha!... ela certamente nunca notará minhas cicatrizes daquela tal festa de fim-de-ano... Eu me lembro também que talvez justamente por estar sem toda essa carga de responsabilidade, eu podia naquela época (apenas três anos atrás!) torrar numa breve noite dois maços de Hollywood vermelho, sem sentir cócegas em meu sistema respiratório... Tudo desde então ficou pesado demais, como se eu tivesse aprendido a predispor minha alma à podridão, de um jeito ao qual meu corpo, como todo bom espécime, acabou por se sujeitar. Estou fraco, à imagem de minha alma, terrivelmente cansado de minha falsidade; cansado da mesma mentira que me ensinou a viver a então Primeira Dama, à sua própria revelia, naquela fatídica e riquíssima festa de fim-de-ano...

Agora, ao que parece, adoeço com muito mais facilidade. Meu lado honesto, não obstante, alerta que isso é uma falácia, pois me lembro de estar doente mais ou menos pelos mesmos motivos desde os primórdios de minhas aventuras belo-horizontinas. Não costumo tolerar bem a privação de sono, nem a má alimentação, nem o excesso de cigarro. Isso, ao que parece, é desde sempre, embora, apesar da sabedoria que a idade deveria dar, talvez tenha se tornado hoje mais fácil repetir todos esses equívocos, sempre mais e mais eficientemente. Sou mesmo um cara idiota, incapaz de aprender com os erros; incapaz de valorizar alguns acertos simples, que não por isso deveriam deixar de serem valiosos.

(...)

Estou com sérias dúvidas sobre o que fazer. Os últimos dias me mostraram que meu corpo impõe um limite mais rigoroso que o que me disponho a aceitar. Parece que não adianta muito insistir, pois não tardam os sinais do cansaço. Preciso de férias; de férias longas; talvez como o Bilbo, quando decidiu deixar Bolsão, e talvez da mesma forma ou pelo mesmo motivo. Estou me sentindo verdadeiramente velho. Já não me orgulho por ter o passo mais rápido, pois já não o tenho — exceto talvez saindo da estação do metrô —; agora peço aos meus acompanhantes que andem mais devagar, de forma que eu possa acompanhá-los. Talvez porque eu esteja doente; talvez porque eu tenha estado doente; talvez porque eu agora seja doente, carente da capacidade de ser sincero com aqueles a que quero bem — e que, a despeito de todas as minhas atitudes, insistem em só me fazerem o bem, mesmo durante uma fria crise de dezembro.

Post Scriptum

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Tá, certamente não foi o dia mais agradável do ano, mas pode ter sido o mais rico. Nesse sentido, pode mesmo ter sido o melhor. Sem qualquer dúvida, um dia digno de dezembro...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Spring Yard Zone One

Brasília está ficando pra trás. Curiosamente, o deserto de asfalto está ficando normal. Já há muito tempo me acostumei com o trânsito desta cidade, a tal ponto que todos os outros me são estranhos. Na verdade, sinto que, em meio às vias, sou mais orgulhosamente brasiliense que o que quer que seja. Claro, dificilmente me admitirei como “brasiliense”, já que tal adjetivo — não sem algum carinho — talvez nunca me deixe de ser pejorativo. Ser "brasiliense" é ser mau; é ser servidor público; é ser mesquinho, idiota, medíocre e brasiliense, como todo brasiliense tende a ser. Se um dia eu te chamar de “brasiliense”, não leve a mal, pois devo estar em um mau momento. Não costumo ser tão rude, em especial com quem se digne a ler este blogue... (Mentira, pois costuma ocorrer o inverso!...)

Enfim, metrô não foi feito pra mim. Sinto isso também já há bastante tempo. Nunca me senti bem num metrô, exceto, talvez, em certo período de específica intrepidez, do qual não cheguei a tratar neste blog. Por fim, hoje estou em meu estado normal, por isso não gosto de metrô. Mas hoje ocorreu algo estranho nesse trem.

Como bem sabem os que me conhecem brasiliense, quando terrivelmente pego o metrô, entro numa extremidade e largo na outra... (...)

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Bem, enquanto escrevia este texto, sofri uma interrupção agradável. Sabe, às vezes a gente erra por exagerar, e, numa espécie de pedido de perdão, eu diria: “às vezes nos pedem algo e, em troca, pedimos mais.” É como poderia ser explicada a interrupção que se sucedeu. Enfim...

(...)

Bem, em vão tentando retomar a linha anterior depois da já mencionada interrupção, esclareço que desde o princípio desta postagem eu pensava em dizer algo sobre cachorros. Eu sempre quis ter um labrador, apesar de nunca ter visto um; salvo talvez (apenas talvez) um caso isolado em Goiânia, quando quis comprar um cachorro, um magnífico filhote de labrador; quando afinal terminei levando pra casa uma calada viola caipira. Ainda bem que trouxe a Goiana, pois ela parece suportar bem melhor o meu desdém. Na melhor das hipóteses, apesar de meu descaso, ela não fuja de mim, como notei ter fugido o Bandolim, na tão adiada ocasião em que fui buscá-lo em vão em Montes Claros, há algumas semanas...

Enfim, mais que sobre o cachorro, eu pretendia dizer algo sobre a coragem. Mas, felizmente, algo melhor me sucedeu (algo a ver com a interrupção), e já nada mais me faz sentido dizer do que planejei dizer entre a estação e aqui. Agora apenas espero, com certo sentimento de urgência. E, se, sinceramente, posso dizer mais alguma coisa sobre hoje, é que, à parte todo o meu egoísmo, este parece ter sido o meu melhor dia do ano.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Até mais, primavera!...

Enfim, não é de hoje que sinto que sou um cara sazonal. Já há muito observei que o começo da primavera costuma ser maravilhoso, mas ao seu término, as coisas endurecem visivelmente. É como se no começo do verão eu tivesse que me desapegar da doce mãe primavera, por meio de uma fase de maremotos e montanhas ásperas. Talvez essa impressão remonte ao final da época de escola, quando o fim de ano me obrigava a querer correr atrás do prejuízo, na “recuperação” do ano letivo. Talvez não...

É curioso como certas coisas me ocorrem notoriamente em setembro, e como certas outras, meio que opostas, me ocorrem muito mais facilmente em dezembro. O fim-de-ano é para mim tipicamente um marco de abandono e solidão; é a época do ano que o maestro do mundo escolheu para me deixar só. Talvez seja por isso que eu não me interesse grandemente pelas festas de fim-de-ano; afinal, quando não estou bem nada me parece bom. Coincidência ou não, muito mais coisas belas me ocorreram no limiar ou no princípio da primavera, enquanto a maior parte das minhas catástrofes me ocorreu muito próximo ou durante o verão.

Claro, não estou tentando insinuar que o que se passa comigo hoje seja "catastrófico". Até estou bem (e quase estou sendo sincero); apenas estou um tanto doente e um pouco só. Doente ou não, estou tentando entender essa melancolia, que me ocorre tão frequentemente nesta época do ano. A experiência me ensinou que esse período, que acaba de iniciar, funciona em minha vida como uma espécie de purgante, que me ajuda a eliminar as coisas nocivas, das quais costumo depender infantilmente. Neste período afasto de mim aquilo que me faz mal, dentre os agentes externos; talvez porque já haja mal suficiente dentro de mim. Nesta época é que, em geral, mais amadureço e mais duramente me decepciono; é quando me surgem as feridas que pelo resto da vida me acompanham como cicatrizes. Esta época é singular.

(...)

Enfim, talvez o mapa astral possa explicar também algo a esse respeito. Então, de repente, tudo passa a ser culpa de Saturno ou de Andrômeda — ou, muito mais provavelmente, talvez minhas catástrofes surjam de algum tipo de desarranjo entre os Cybercops e os Cavaleiros do Zodíaco...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Notas extemporâneas de quinta-feira

Certo dia reencontrei no livro que tenho lido algo sobre um interessante provérbio de alguma tribo de surfistas americanos, mais ou menos assim: “É muito bom bater a cabeça na parede, pois é melhor ainda quando a gente pára.

Naquele dia havia tido uma tarde um tanto a calhar. Passei horas torturantes por conta de algumas coisas do trabalho, que, para meu desespero, pouco dependiam de mim. Mas, desta vez mesmo pra variar, tudo deu certo ao final; o alívio se confirmou no dia seguinte, revigorante. Minha alegria com o happy end foi imensamente maior que o suplício, talvez por reflexo de um estado de espírito mais profundo, então em seu melhor ponto desde o começo da semana. Nesse dia começava, afinal, a fazer as pazes Fernandinha, que vinha sendo maltratada por um sentimento que hoje beira o tédio. A chuva do caminho de volta só me incomodou levemente, e, sem tanto esforço, quase apenas por conta da perda de visibilidade. Na ocasião também girei o acelerador até o final em quase todo o percurso, mas já não fiz manobras tão audaciosas assim. Estava, afinal, mais pacato, tranquilo e temente à morte. Até parecia ser sinal de boas novas...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pequena Mag

Hoje me apaixonei novamente. Conheci uma garota linda e enigmática, cheia de alguma distante experiência. Meio jovem, meio antiga; quilômetros mais profunda que aquilo a que estou acostumado. Uma guerreira de outros tempos; cheia de vida; pequena professora de dança.

Nem precisava dizer que é uma criança de belos olhos, grandes e brilhantes; do tipo que veio a trabalho, como um pesquisador de certos traços da vida. Vi hoje mais cedo algo sobre quando apenas brincava de erguer a cabeça; depois desta noite, não tenho dúvidas de que não será nesta vida que a baixará. Evidentemente, é filha de um grande homem com uma grande mulher, que souberam fazê-la florescer com seus grandes amores. Por vezes a mãe me parece mais frágil — e talvez toda mãe o seja —, e, por estranho que me pareça, não parece ter muito mais o que ensinar. A pequena Magnólia já sabe tudo de que precisa. Ela sabe o que quer. E não tenho dúvida de que terá.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

EPTG

Uns seis anos atrás, estava eu lá na fatídica casa do Sr. Moko-Sotustra. Dentro do possível, imitando o velho estilo Moko-Sotústrico daquele tempo, eu poderia dizer algo como o seguinte:

— Lá pelas tantas, Leksotustra solta uma das suas: “Pô, já acabou o cigarro?... Então me dê aí um remédio qualquer, nem que seja um café bem forte, que estou precisando de alguma droga..."

É mais ou menos como me sinto neste momento. A noite acaba, e fico aqui com toda a energia do mundo, sem querer pensar que, depois de um momento tão feliz quanto breve, amanhã tudo volta ao normal. Aquele “mapa astral” da lua também me contou alguma coisa a respeito desse sentimento, mas me esqueci do quê antes de começar a escrever esta frase. Lembrei depois, mas agora fica claro que as palavras, ainda que precisas, não denotam tanto quanto o sentimento, indescritível.

Bem, afinal, noto que já começo a fazer alguns planos. As ideias já se estabilizam, meio que à revelia. Noto que tenho medo agora de muita coisa, certamente porque ainda não admito que sei do quê. Eu sei o que me aflige. No fundo, o medo ainda é um só; o problema mesmo permanece um só. Tenho medo de reconceber aquelas coisas profundas, mas, também um tanto à revelia, vou fatalmente recomeçando a aprofundar.

(...)

Depois de chegar em casa de novo milagrosamente são e salvo, fico pensando sobre a que se deve minha paixão pela velocidade. O poeta me disse certa vez que era pelo desejo de morrer; “punção de morte”, se não me engano. Mas conheci outros freudianos que me soavam mais verossímeis: um deles era a Fernanda Mara, que nos deixou há algum tempo; outro é o Gabriel, que, dentre todos, me parece o mais razoável. A Fernanda, claro, era mais verossímil, com seu discurso racionalmente apaixonado, límpido e profundo. O Gabriel mostra ter mais dúvidas (com o que me identifico bastante). O poeta é do tipo que me parece ter certeza demais. Nenhuma das explicações é aceitável.

Com certeza, Freud não explicou tudo, nem soube fazer soar satisfatoriamente tudo que explicou. Não obstante, Freud era outro apaixonado, e por isso tem seu mérito inquestionável. Lembro-me também bastante do Luís, que apreciava Vygotsky em detrimento de Piaget. Claro, sou sempre muito mais Piaget — é que tenho medo de decepções —, mas recebi melhor o russo depois de ouvir o belorizontino. Sofro de pavor e paixão por todas as certezas — Vygotsky era um convicto —, e, nesta fase da vida, tenho agido como gato escaldado. Tenho medo de acreditar em coisas sedutoras, a exemplo do passar da crise, o prenúncio da nova decepção... Ainda não estou pronto para outra decepção. Claro, com toda a frieza do mundo, não que a providência se importe...

(...)

Hoje, ainda, estou pensando em tornar a compor. Esse sentimento não é tão intenso, mas é notório pela persistência. Claro, por fim, já não me sinto tão desorganizado como mencionei antes; claro, afinal, a nova palavra-de-ordem é “cautela”. Algumas coisas vêm, vão e voltam; após cada ciclo, parecem mais fortes, seja pela persistência ou pela vigilância. É também por isso que venho me sentindo velho — uma ideia que rechaço, até onde me conheço —: é que parece sobrevir certa carência de novidades, ou mesmo certo apego pelo familiar... É por essa carência que insisto em ter em mim um tanto de coisa esquisita, que vem, passa e volta. Sinto falta do que volta, do que persiste; talvez porque não resisto muito, pois ainda que consiga ser duro, não consigo deixar de ser leve. O que pesa, afinal, é aquilo que o Anjo sempre me disse, desde o começo de seus tempos; e fico voando por aí, só aceitando a verdade pelo tempo preciso para descansar...

(...)

Sei que há muito que aprender direito. (Por exemplo, ainda não aprendi a respeitar direito os clichês.) Decepciono-me comigo mesmo deveras à toa. O Anjo alerta que só me resta compreender, porque no fundo já sei; no fundo é isso mesmo de que estou farto de saber. É que compreender dá muito trabalho, ou dá muito de alguma outra coisa que deveria justificar minha incompetência. Afinal, estou cansado. Neste momento, quero dormir, mas alguma coisa tosca me impede. Acho que estou com medo do amanhã...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Fernandinha de La Plata

Pois, ontem, mais pela manhã que quando voltava pra casa, fui muito injusto com a Fernanda. É verdade que pela manhã chovia, e, naquele estado de espírito, até chuvisco era ofensa. Eu me lembro de que, noutro tempo, gostava de andar na chuva, e a única ressalva ficava por conta da visibilidade. Também naquela época eu não me preocupava com resfriado, nem com pneumonia... Hoje me preocupo com resfriados e com a roupa amassada e suja; ainda não parei para pensar no que sentirei se vier a ficar doente de verdade por estes dias. Acho que, como antes, as coisas mais graves me incomodam menos, mas creio que algo tenha mudado também nesse sentido.

Neste fim-de-semana, quando buscava a Fernanda lá de Montes Claros, não apreciei nem um pouco a estrada. Estava cumprindo meta, fazendo o que precisava ser feito, porque pior seria se não fizesse. Agi como no trabalho, talvez até com menos prazer. Foi chocante. Gosto de gostar do que costumo gostar; gostaria que todas as minhas boas paixões fossem eternas. Tudo culpa da lua. Mas já aceito melhor a minha instabilidade, apesar de precisar cuidar para que não a aceite demais, e passe a lamentar pelos momentos de calmaria. Em oposição, gosto da Fernanda ainda, mesmo que já não tanto. Está sendo difícil aceitar o caminho do meio, agora que desconfio dos lados bons das coisas. É bom passar no meio dos carros, mas ter medo de quebrar a perna é um saco.

(...)

O pessoal do trabalho ontem aceitou até bem a ideia da minha TPM, que ficou ainda mais verossímil hoje, que passou. Se perguntassem, diria hoje que estou apenas de ressaca. Se eu realmente fizer as pazes com a motoca, talvez leve adiante a ideia de viajar sem rumo, talvez até a Argentina, talvez até a Holanda. Na verdade, agora penso em conhecer o Rio de Janeiro, preferencialmente sem correr grandes riscos de ter que passar outra tarde no Tom Jobim carregando um tanto de tranqueiras. Inclusive, se for o caso, vou dar um jeito de viajar sem bagagem; talvez apenas com a mochila, revestida por dentro, de forma que eu não precise me preocupar com a chuva ou com a rede-de-amarrar-mochila-dentro-de-saco. Quero chegar e sair quando der na telha. Quero deixar o capacete no bauleto, e, se der, ter também os ombros livres. É verdade que assim fica difícil; é por isso mesmo que será preciso fazer as pazes direito com a ruivinha. Quando a gente ama, todas as cargas são leves.

Se eu ainda fosse jovem, ia querer comemorar por ter reativado o blogue. Ia começar a fazer planos, compromissos, projetos, até mandar tudo pro alto e querer passar longe daqui. Se isso ocorresse, pelo menos iria poder colocar a culpa na lua, caso eu não esteja disposto a me responsabilizar pela burrice. Isso me lembra duma colega de Montes Claros, com a qual esbarrei na noite de sábado, e que disse, noutra era geológica, que tenho baixa inteligência emocional. Ainda bem que não sou um bom guardador de rancores. Afinal, nem me lembro de qual foi a companhia aérea que me deu tão má impressão sobre aquela que um dia será, na melhor configuração de futuro, a minha querida Metrópole à beira-mar...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Lua em Sagitário

Hoje descobri que tenho a lua em Sagitário. Bem, quero dizer, não me lembro bem se era em Sagitário mesmo, e nem sequer sabia como escrever essa palavra até que veio me repreender o corretor ortográfico. Também não sei bem o que isso significa; mas, ao que parece, estou precisando de algum alento, ou no mínimo, de alguma distração. A lua vem a calhar.

Enfim, é tudo culpa da lua. Tudo assim fica explicado, límpido e esquisitamente lógico. É maravilhoso sair do abismo do nada, nem que seja com uma piada sem graça. Fui hoje surpreendido com um sentimento extremamente confuso, como jamais me ocorrera — ou, aliás, repensando um pouco mais, não faz tanto tempo assim desde meu último inferno, mas nunca antes o observei tão bem. Isso já me ocorreu diversas vezes, embora ainda não neste momento de minha vida, tão especial porque já me acostumo a assumir a responsabilidade sobre minhas coisas. Vivo num intenso momento de caos, medo e — por que não? — desespero. Venho construindo minha vida de cima para baixo, cada vez mais fundo; construí com grande esforço as paredes da minha casa sobre um alicerce emprestado. Ao que parece, terei que reconstruir tudo de novo; mas não lamento por isso. "A minha casa está onde está o meu coração; ele muda, a minha casa não."

Agora que sou mais forte, a vida é mais dura. Meu anjo me deixou de lado por uns tempos, ou, mais provavelmente, como esse pensamento já há tempos tem me sugerido, eu o deixei. Afinal, por culpa da lua, a beleza da vida sempre insistiu em me escapar, e não me é dado estar bem por muito tempo. Por culpa da lua, estou fadado a correr atrás de miragens; de mim mesmo, minha maior miragem. Nos últimos tempos julguei descobrir que não me conhecia, julgando estar me conhecendo; enfim, noutra sonsice, que também se esgotou junto comigo. Não tenho a menor ideia do que vem a ser o tal de auto-conhecimento; tenho raiva de quem o saiba. Parece que estou mais forte, pois apenas tremo perante forças que me derrubavam. Não faço a menor ideia.

(...)

Andei pensando que está chegando a hora de voltar a compor. Andei pensando muito seriamente nisso. Se me permitem a pretensão, acho que não é a hora ainda, pois jamais estive tão desorganizado. Gente desorganizada não tem hora pra nada. Pode levar dez minutos ou toda uma vida... Estou escapando da fase dos sonhos e dos devaneios cheios de fantasia. Meu sonhos têm sido reais; meus pesadelos têm sido acordado. Estou dissolvendo o absurdo do meu otimismo. Estou cada vez mais cansado do meu cansaço. Acho que isso também vai passar.

Parece que me faltam as pastilhas Tony de minha infância. Talvez me falte algum parafuso; alguma substância química dessas que os médicos vendem. Talvez me faltem convicções — embora eu não esteja convicto disso —, ou talvez me falte arte, brincadeira, mãe, companhia, alimentação certa na hora certa... Nunca me senti tão velho, e suponho que já esteja na hora de remoçar. Talvez esteja na hora de renascer. Talvez, de reencarnar...

Forçosamente, estão chegando as grandes reformas. Pois, minha vida é um arremedo das três metamorfoses de Zaratustra: quero tornar-me criança. Hoje tudo são espinhos; estou me tornando espinhento. Amanhã, quem sabe, serei um ouriço pacato e feliz. Por enquanto me arrasto como um camelo desidratado. Minha barba poeirenta se disfarça de juba.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Parâmetros

Contaram-me uma mentira. Disseram-me que o importante era competir. Mas qual é a importância de competir se não for por uma oportunidade de vencer? — O que é, afinal, uma competição?...

Pois, talvez a sentença simplesmente esteja mal elaborada: competir não importa; importa outra coisa, da qual aquela é um meio. Pois, qual é a necessidade de medir, de comparar, de estabelecer parâmetros?... Por acaso o mais rápido, o mais esperto, o mais habilidoso é mais... mais... — Pois, e daí, se for?

(...)

Por outro lado, se os imbecis e os otários não são em geral mais felizes que os espertos e vencedores, pelo menos parecem. E parecer, é importante? — Difícil responder. (Mas que é útil...)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Criptograma Homeopático

Pois, acaba de me surgir a ideia de que este blogue está para completar um ano. Nunca antes parei para reler as postagens — o que não deixa de ter certa conformidade. Ainda assim, vejo também que não atingi o propósito inicial, em nenhum dos aspectos...

Parece que este blogue surgiu para ser uma casca; pouco menos que um ato de censura. Era preciso me distanciar de assuntos tão graves e tão explicitamente importantes do blogue anterior. Era preciso proteger minhas vísceras da contaminação de quem não se interesse por respeitá-las. — Isso me remete sobremaneira a algo que aprendi com a então Primeira-Dama, na antológica festa de fim-de-ano: — que, no fundo, ninguém se importa, ninguém se interessa; que é o tédio — e não o amor! — o grande motor das relações humanas. Tudo o que se passava, naquela época, podia ser bem explicado através dessa sentença, na última análise a que então me dispunha a fazer.

(É claro, também já não confio cegamente nesses meus juízos sobre meu passado. Já notei que mais vale a pena tratá-los como hipóteses mais ou menos coerentes, às quais não vale o esforço de sustentar. Mas, não obstante, todavia, contudo, preciso prosseguir com estes juízos de agora...)

Pois, segundo a noção de hoje, o blogue teria surgido num momento em que a festa de fim-de-ano tenha se estabilizado em meu coração. (Mais exatamente, no momento em que assimilei por completo a conclusão à qual cheguei naquela noite; no momento em que finalmente a aceitei a conclusão e os conflitos decorrentes, passada a necessidade de sobrevivência, a solidão, a opção pela sobrevivência...) Então, já se iniciava a minha nova escalada, num castelo de cartas tão poeirentas que pareciam sólidas. E , afinal, não deixavam de ser.

A primeira manifestação disso estava na publicação do texto Os Filósofos da Via Expressa, anterior a este blogue, sumamente oportuno. Neste exato momento, sou incapaz de escrever algo como aquilo, tão impudico, tão odiento, tão sinceramente insincero, tão desprovido das inocentes pretensões de Futebol. Isso logo tratei de observar, já irrecuperavelmente marcado, em outro criptograma homeopático, sob o título de Just be yourself.

Mas, enfim, também isso passou. Afinal, se o blogue não atingiu seu objetivo original — que se tenha perdido —, pelo menos cumpre a finalidade mnemônica dos E-mails para Isaías, postos no blogue anterior. Não se pode dizer que seja um fracasso completo: se o propósito mais antigo nem sempre é o mais digno, ao menos é digno o ato de reconsiderar.

domingo, 2 de agosto de 2009

As Três Condições

À sombra de uma árvore, em Pedro Leopoldo...

sábado, 25 de julho de 2009

Xadrez no Confluência

(Vídeo extraído do projeto "Webcam Section v. 0.0.1 Unplugged & Absolutely Tosco", com participação especial do Paulista.)

sábado, 11 de julho de 2009

Pacto de Amizade


"Saiba que quando fico quieto é porque tem algo de errado.
Olho algum velho retrato, faço o sinal da cruz e sigo cantando pro diabo.
E o que tenho a dizer, a você, meu irmão, meu assassino
É que lamento não estar aí agora com você, pra curar seu cansaço.

E o estardalhaço que vem da rua me deixa em paz.
Pivetes se divertem com o fun que deixei enterrado no asfalto.
E no assalto que você praticou, tenha certeza de que, mesmo assim,
Nunca lhe falhará em mim a promessa do amor.

Porque tudo que foi construído com tua ajuda
Servirá agora pra nossa luta, nossa louca luta.
E os demônios que se escondem em cada passo teu de agora, os matarei.

Tão verdadeiro é o meu incestuoso amor que nem há sangue no meio.
Há apenas um domingo à tarde, e panelas sujas na cozinha.
Há uma promessa que ainda cumpro, de ser teu amigo, com alma sozinha."

terça-feira, 30 de junho de 2009

Pedagogia

Estou em dúvidas quanto à capacidade humana de aprender. Certamente, é um problema humano, generalizado. Espero que seja. Não pode ser exclusividade minha. — A acreditar nisso, prefiro o solipsismo!

Estou realmente indignado. — Como pode alguém tão reiteradas vezes bater a cabeça na parede, sem se importar com o que lhe ensina a experiência?! — Como pode alguém ser tão indiferente às lições da vida e insistir, e permanecer, e estagnar!?... — Como posso ser tão cabeça-dura; justo eu, que posso optar por ser só e tão naturalmente só?!

É como andei dizendo por aí: livre-arbítrio é um conto-de-fadas. O universo todo é uma mesa de bilhar — e, perto da tacada, sou pequeno demais. (O pior é que parece que nem isso eu aprendo...)

domingo, 21 de junho de 2009

O Solipsista

Pois, o Solipsismo é a melhor explicação do mundo. De que adianta existir algo além de mim mesmo? E daí que existam outras pessoas no universo? A solidão é inevitável; tão inevitável que deixa de ser um problema. Eu amo o solipsismo, quase tanto quanto ao café; mas o que amo acima de tudo é a mim mesmo.

Nada há no mundo de mais importante que eu — disso também é impossível e inútil fugir. Tudo o mais — se é que há — gira em torno de mim; é fruto de mim; é consequência unicamente de mim. De que importa se ninguém visita este blog, se é que há quem possa visitá-lo? — De vez em quando, uma e outra miragem, pingadas; mas que vêm a comando de sabe lá o quê, pra me fazer sabe lá o quê. — Pois, tratemos um pouco mais sobre isso...

É mais difícil adotar um solipsismo egoteísta, pois torna-se mais difícil conviver com a chateação, o tédio e outras coisas desse nível, indesejadas. Por isso, enquanto não consegui aderir completamente ao solipsismo, convido todos vocês, leitores hipotéticos deste blog, a se juntarem a mim em minha busca por um solipsismo alteregoteísta tendente para egoteísta. Saibam antecipadamente que, à medida em que vocês forem se juntando à minha seita, vocês vão deixando de existir e deixando de ter vontade própria, à medida em que eu me torno o deus do meu próprio mundo. Se servir de consolo, devo dizer que isso não lhes será nenhum problema, pois vocês afinal sequer existirão! — Afinal, quem não existe não se importa...

Enquanto isso, vou tratando de aumentar minhas habilidades — o que, em última análise, é algo que faço para tomar as rédeas do meu mundo, subjugando-o a mim. Assim sendo, devo também dizer que, como tenho adquirido habilidades nos últimos anos, vocês têm se tornado cada vez menos existentes. Se é que vocês ainda dispõem de alguma autonomia e desejam mantê-la, eu recomendo que vocês me matem o quanto antes. Se eu continuar vivo pelos próximos vinte anos, talvez nenhum de vocês exista mais. — Se eu estivesse nessa situação, ia considerar a hipótese de homicídio...

domingo, 7 de junho de 2009

A Praça

Moro numa cidade estranha, cheia de coisas estranhas. Na Metrópole, nas faixas-de-pedestres abarrotadas e disputadas, as pessoas — que se acotovelam quase sem se enxergarem — parecem menos distantes. Aqui, todos se vêem, como se vê a um semáforo fechado, ou a um pedestre que determina a parada obrigatória. Nas ruas todos se concebem quase como a objetos, como se o clima seco fosse capaz de infligir às almas aridez. Nas ruas, no lugar de pessoas, há pedestres; nos shoppings e elevadores, há transeuntes. 


Mas nas salas, há colegas. Lá os candangos retiram suas couraças e se revelam humanos; tão ou mais humanos que na Metrópole ou no Interior. (Talvez seja porque nas salas há umidificadores de ar.) Pois, nas salas, é como se encontrássemos em suas casas velhos parentes, que nos recebem com um café quente e um abraço caloroso. Então se descobre que a Capital não é habitada apenas por bonecos de bronze.

Quem me conhece sabe que aqui não estou feliz; sabe também que eu não estava feliz onde estava. Às vezes me perguntam se eu desejo voltar. Não compreendem quando eu digo que já não é possível. O lugar do qual sinto falta já não está na lá; está onde só posso chegar com a lembrança. Deixei uma parte de mim pra trás; não no espaço, mas no tempo. O que está a apenas 1000km de distância está perto; está comigo. Aqui — ou seja, neste momento — minha sede é maior que minha capacidade de beber. Faço companhia aos bonecos de bronze.

sábado, 6 de junho de 2009

BR-070

Bate em meus pulsos um vento frio de saudade; algo como quando me deparei com a Metrópole; mas a semelhança, se há alguma, está na essência, muito abaixo da superfície. Naquela ocasião, comecei a relembrar de tempos remotos; a sonhar com imagens longínquas; com algo que se tornara passado sem que eu percebesse, como se entre um tempo e outro houvesse um período de escuridão, introduzida por uma sonolência suave e súbita... Teria sido um período misto de sonho-bom e pesadelo, em que eu me encontrava sobre um penhasco à beira-mar, tendo aos pés pedras cristalinas a serem lambidas pelas ondas; em que, nos momentos de maior lucidez, sentia o vento frio e reconfortante de um fim-de-tarde sem sol, que ansiava por me unir as pálpebras, para me trazer à língua o sabor acre das pedras. Era outra, aquela saudade...

Hoje tenho uma saudade sem dor, amadurecida, resignada. Sonho e deliro ainda, mas provavelmente. O tempo passa devagar enquanto por nada espero, num primeiro sinal de velhice. Começo a descobrir certa força; a realizar certos propósitos; mas o faço como a uma obrigação acessória, quase fastidiosa. Muitas pequenas alegrias, quase nenhum desgosto; — o interior vazio. Saudades daquela solidão tão profunda e rica, que só pode assolar a quem tem próximo de si um ser amado.

Poucos metros à frente, naquela mesma estrada, um condutor que procure o retrovisor central encontrará uma motocicleta, guiada pela sombra de um personagem de ficção.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Cavaleiro da Triste Figura

Talvez todos nós tenhamos algum grande plano na vida. Algum grande desejo... algum grande anseio... E uma grande falta... um profundo vazio... No fundo todas as pessoas talvez sejam iguais.

Parece que alguns escritores me deixaram recados; é comum dizerem que sou doente. Um deles insinuou que devo ter alguma disfunção neurológica (ou, pior, que eu gostaria de ter); outro me diz descaradamente que sou maluco, doido de pedra (ou, pior, que tento ser). Pois, são os mesmos que me fornecem os argumentos mais hábeis, que me incitam a me tornar cada vez mais obcecado em minha busca.

Então, em resposta, me vem a Rita Lee, com aquela apologia da loucura. Mas também a Rita me abandona, como um orgasmo fugaz: talvez eu não seja louco o suficiente. Quisera eu "ser feliz", ainda que o fosse num manicômio! E, enquanto isso, trabalho para conseguir o meu espaço num hospital psiquiátrico; na fosca esperança de que seja na ala dos felizes...

Pois, como um tubarão, não posso parar de me mover. Estou acostumado a me acostumar. Posso me acomodar em qualquer canto que me seja compreensível. Mas minha vida é uma escada rolante, descendente; os padrões, tão logo são identificados, tornam-se degraus. Todo o meu conhecimento, estático, logo começa a me arrastar para baixo, à morte. É do que receio. Não quero acreditar que só terei descanso quando não puder gozar dele.

Oh, minha Teoria-do-Copo, meu Elixir-da-Longa-Vida!... És o que tenho de sagrado! Mas me fazes mal?!... 

(Mas não importa: doravante a felicidade mora novamente comigo — até segunda ordem.)

quarta-feira, 4 de março de 2009